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Na vida como no pôquer

Luis Fernando Verissimo

“O pôquer é uma metáfora para a vida." A frase pairou no ar, junto com a fumaça. Eram cinco em volta da mesa. Dois fumavam charutos. O autor da frase esperou alguns minutos pela reação dos outros e, quando ela não veio, começou a repetir:

- O pôquer é uma metá...

- Está bem, Julião - disse um dos outros, com um suspiro - o pôquer é uma metáfora para a vida. Desenvolve, desenvolve.

O Julião tinha aquela mania. Sempre que era a sua vez de dar as cartas, começava a falar sem parar. Começava com a sua "maldita literatura", como dizia o Telmo. Tinha teorias sobre o pôquer. Ninguém tinha muita paciência com as teorias do Julião.

- Na vida, como no pôquer, cada um de nós recebe cinco cartas para começar. Ao nascer.

- Eu não recebi carta nenhuma quando nasci - disse o Telmo, que mastigava seu charuto.

- Metaforicamente, Telmo.

- Ah.

- Cinco cartas, como no pôquer. Primeiro: nascemos num determinado lugar. No Brasil, e não na China, ou nos Estados Unidos. O que faria muita diferença. Certo?

- Certo, Julião.

- Segunda carta: nascemos de uma determinada cor. O que aconteceria se você tivesse nascido preto, Telmo?

- Minha mãe ia ter que se explicar?

- Não. Muitas coisas da sua vida já estariam preordenadas, só pelo fato de você nascer preto e não branco. Terceira carta: situação econômica. Você pode nascer numa família pobre, de classe média ou rica. Não depende de você, depende da carta que recebeu ao nascer. Certo? E isso também faz muita diferença.

- Certo.

- Certo

- Certo.

- Certo.

- Quarta carta: inteligência. Muita, pouca, média. Confere?

- Arrã.

- Tá.

- Confere.

- E a quinta carta?

- Calma. Vamos examinar as cartas que já temos. Todas se referem a coisas reais, a fatos, a circunstâncias comprováveis. Lugar de nascimento, raça, classe, capacidade mental. O que é que falta? Falta o imponderável. O imensurável. A quinta carta que a vida nos dá.

- Qual é?

- A carta da sorte ou do azar.


O jogo não tinha parado. Os cinco estavam na rodada. Era hora de descartar as cartas indesejadas e pedir outras, e fazer as apostas. Mas a teoria do Julião também continuava sobre a mesa.

- A quinta carta é, no fim, a mais importante de todas. Ela pode contrabalançar todas as cartas ruins. Pode ser a decisiva para a pessoa vencer na vida.

- Sei não - disse o Telmo. - Alguém que nasce brasileiro, preto, pobre e burro vai precisar de muita sorte para vencer...

- Mas aí é que está - continuou o Julião, terminando de dar as cartas conforme o pedido de cada um, inclusive uma para ele mesmo. - Nisso também a vida é como o pôquer. Você não precisa ficar com as cartas que a vida lhe deu. Pode pedir outras cartas. Pode ir embora do Brasil. Pode derrotar o preconceito e ter sucesso mesmo não sendo branco. Pode sair da pobreza com seu esforço, mesmo não sendo inteligente. Pode se educar e deixar de ser burro. E pode descartar o azar e receber a sorte. Como eu tenho certeza que recebi a carta que faltava para fechar meu jogo e ganhar esta rodada. Há mil maneiras em que você pode vencer, mesmo tendo recebido cartas ruins...

Todos examinaram suas cartas. Julião sorriu ao examinar as suas e, quando chegou sua vez de apostar, apostou alto, para desencorajar os outros. Todos ficaram olhando para o Julião. A carta que ele precisava teria mesmo entrado? Julião continuou sorrindo. E completou a frase:

- Inclusive blefando.

- Maldita literatura - disse o Telmo, quase engolindo o charuto.


Domingo, 19 de fevereiro de 2006.



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